Foi um sábado ensolarado com muita cerveja e em companhia de alguns bons amigos.

Posso resumir assim a história da última vez que pisei num bar. Lembro de ter visto algumas pessoas de máscara no caminho de volta, no metrô, mas não tinha ideia do que estava por vir. Na segunda-feira que sucedeu o agora memorável sábado no bar, foi decretado que estaríamos em quarentena até sabe Deus lá quando.

Eu e meus amigos antes da pandemia (arquivo pessoal)

O período mais incerto que nossa geração já enfrentou perdura agora mais de um ano e não há sinal de dias melhores à frente. Quando haverá vacinas para todos? Quando nossa economia vai se recuperar? Como evitar e combater as notícias falsas? Como não surtar com as pessoas que pouco se importam com as medidas sanitárias e sequer acreditam na pandemia? E, mais importante, qual será o paradeiro de Dona Jaci?

Perguntas essas ainda sem resposta…

Se você está se perguntando quem é Dona Jaci, confesso que essa é uma preocupação muito pessoal minha, mas que gostaria de dividir com vocês, se não for tomar muito seu tempo, é claro.

Dona Jaci era uma senhora que costumava passar pela minha rua à procura dos recicláveis com sua filha, carregando um carrinho de feira. Embora meus resíduos estivessem sempre devidamente separados, Dona Jaci os revirava, o que incomodava bastante minha cachorrinha.

O que não sabíamos, sobretudo minha cachorrinha, era que Dona Jaci precisava abrir os sacos e separar os resíduos novamente porque o vidro e as caixas de ovo que colocávamos com os demais materiais não tinham muito valor pra ela. Prontamente resolvemos esse problema: materiais recicláveis, só sem vidro e caixa de ovo. Tudo ia mais ou menos organizado até o dia 23 de março de 2020, dia em que Dona Jaci sumiu.

Saí à procura dela por todo o canto; talvez ela estivesse ali, logo no final da minha rua, e eu só não soubesse.

Não a encontrei…

O meu insucesso procurando pelas redondezas do meu bairro me instigou a dar passos maiores.

Talvez o Google tenha as respostas. Fiz a pesquisa quase certo de que fracassaria, acreditando preconceituosamente no senso comum de que catadores não têm perfil no Instagram. Estava enganado e falhei, pelo menos em parte, na minha busca.

Não achei Dona Jaci, mas encontrei Anne Caroline, uma catadora da Zona Norte.

Anne Caroline

Logo de cara, me encantei com o seu perfil do Instagram. Posts informativos e muito bem escritos, que, além de oferecer dicas práticas sobre como destinar os resíduos corretamente, mostram as histórias encorajadoras dos catadores e catadoras que atuam como um elo fundamental na cadeia de consumo.

Fiquei animadíssimo com o perfil e fui direto conferir os canais Cataflix e Pimp My Carroça, no YouTube.

Lá, a Anne apresenta vídeos mais focados nas vidas e trabalho dos catadores e catadoras de São Paulo e do Brasil. É muito legal ver como a cultura dos catadores de resíduo é associada à cultura de rua, como o Hip Hop e o grafite, que são genuínos representantes do estilo de vida diverso e caótico das grandes metrópoles. Nos vídeos, as catadoras e catadores são protagonistas, donos do seu trabalho, não meros coadjuvantes.

Bem, ainda estou à procura de Dona Jaci e não há dia em que não pense com um aperto enorme no coração em como a pandemia deve estar sendo duríssima para ela e sua filha.

Será que ela tem um teto? Será que ela tem o que comer? Será que o carrinho de feira dela ainda tem rodas? Não sei…

Embora não ter as respostas para essas perguntas me cause tristeza, é reconfortante saber que o caminho que me leva até Dona Jaci, que espero sinceramente reencontrar com saúde e vivendo com toda a dignidade que ela merece, será iluminado por pessoas como a Anne, mulher batalhadora e talentosa que me lembrou demais Carolina Maria de Jesus, escritora negra, catadora de recicláveis que se esforçava de sol a sol para sustentar três filhos e cujo único refúgio da fome era a literatura.

Caso você também conheça alguma Dona Jaci aí na sua região e esteja procurando por ela, saiba que, mesmo se você não a encontrar, você pode ajudar a aliviar o fardo pesado de muitos outros catadores e catadoras.

Vamos deixar alguns links abaixo para o perfil da Anne no Instagram e para ONGs que prestam auxílio não só aos trabalhadores da reciclagem quanto aos mais vulneráveis na pandemia.

Anne Caroline no Instagram: @annecatadora

Link para os canais no YouTube para o Catflix e Pimp My Carroça:

https://www.youtube.com/channel/UC-IF0G2DbrPcKRG6A70mCyQ

Pimp My Carroça no Instagram: @pimpmycarroca

ONGs que prestam assistência a pessoas em situação de vulnerabilidade:

No Instagram: @blackangel_oficial1

Autor: Rafael Santos da Silva, tradutor, revisor e irremediavelmente preocupado nas horas vagas

3 Comments

  1. Puxa!!!
    Que texto emocionante e sensível.Quantas vezes passamos por esses catadores que trabalham tanto sem nem sequer olhar em seus rostos.
    Com certeza,de agora em diante vou enxergar em cada um deles Dona Jaci.
    Meu respeito sincero por esses personagens da vida real.

    1. Rafael quanta sensibilidade e realidade nesse texto. Amei e por quantas Jaci passamos e deixamos que o conformismo faça com que não os enxerguemos.

  2. Que texto primoroso!!!
    Sensível, repleto de aprendizagens, preocupado, intrigante, pois também esperamos aliviadamente saber que Dona Jaci está bem. Os catadores são pessoas exemplares pois honestamente ganham seu sustento e ajudam o planeta!
    Parabéns pelo texto.
    Amei

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