“Se tudo der errado, largo tudo e vou vender miçanga na praia.”

Você já deve ter ouvido uma amiga ou amigo seu soltando essa frase em alguma conversa descontraída sobre carreira, né? Nela, existem duas ideias que, embora não pareçam, são contraditórias.

A primeira é a de que a vida vendendo artesanato na praia é idílica e sem preocupações e portanto deveria ser almejada e valorizada; a segunda, de que a carreira como artesão ou artesã só seria uma opção viável quando tudo mais desse errado. Como algo pode ser valorizado e desvalorizado ao mesmo tempo, na mesma ideia?

É, meus amigos, o senso comum em nossa sociedade é uma coisa bem estranha…

Bom, já que aqui, na Malungo Art, nosso trabalho é artesanal, nada melhor que aproveitar o 19 de março, dia dos artesãos e artesãs, pra trocar algumas ideias sobre o que realmente significa a carreira no artesanato.

A celebração nesse dia está associada com umas pessoas de quem vocês já devem ter ouvido falar, um tal de Jesus e seu pai carpinteiro José. A carpintaria, trabalho artesanal por excelência, era uma profissão valorizadíssima lá nos tempos de Cristo, já que não dava pra ir à Marabraz comprar uma mesa com quatro cadeiras.

Da época lá do Império Romano até o Renascimento, os artesãos eram vistos como trabalhadores comuns que tinham suas oficinas e manufaturavam produtos que seriam utilizados pelos demais habitantes das pequenas comunidades onde moravam.

Tudo bastante estável e arrumadinho até a chegada de outros caras de quem você com certeza já também deve ter ouvido falar: um tal de Leonardo da Vinci e Michelangelo. Existiram muitos outros, mas esses dois simplesmente transformaram os artesãos em popstars. A partir daí surge a figura do artesão como o gênio criativo: o trabalhador a serviço da arte.

Nesse período, os artesãos tocavam o terror. Pintores, luthiers, escultores etc. eram uma figura venerável nas sociedades, e a criatividade florescia à medida que os recursos do Novo Mundo, do nosso continente, diga-se de passagem, eram escandalosamente explorados. Tinha de haver beleza em cada esquina, e os soberanos europeus gastaram cada centavo do dinheiro ensanguentado que não suaram pra ganhar.

Como nada dura pra sempre, esse reinado da beleza acabou com a chegada de uma coisinha irritante que nos tira o sono até os dias de hoje: um tal de Capitalismo. Não que as sociedades europeias pré-Capitalismo não fizessem comércio exploratório e fossem perfeitas do ponto de vista econômico e ético, muito pelo contrário; mas um sistema de organização social baseado no capital transformou pra sempre as relações dos trabalhadores comuns com o seu trabalho e a industrialização, subproduto do Capitalismo, fez que os artesãos caíssem em desgraça.

Um produto artesanal que levava dias pra ser feito, agora, era feito em questão de minutos.

A capacidade de produção das indústrias aliada à exploração da mão de obra e dos recursos naturais aparentemente inesgotáveis dos territórios invadidos inundou o comércio com produtos baratos, em um processo que conhecemos até hoje. A produção é muito maior que a velocidade de absorção dos bens de consumo, e esse excedente gera, além da mais-valia, o consumismo e desperdício, que contribuem para acelerar o esgotamento dos nossos recursos.

Como se isso não bastasse, os trabalhadores perderam também a conexão com o fruto do seu trabalho e passaram a sofrer com o sentimento de estarem presos em profissões entediantes e sem sentido.

E é aí que retomamos a contradição de querer lagar tudo pra ir vender bijuteria na praia. O senso comum de nossa sociedade diz que todos podem encontrar naturalmente uma carreira em que haverá uma conjunção do prazer de trabalhar com o ganho financeiro, o que — embora possa ser verdade — é 0,01% dos casos. Na maioria das vezes, escolhemos as profissões que estão dentro de nossas possibilidades e aprendemos a gostar delas, caso contrário, somos infelizes e ficamos sonhando como a vida seria perfeita se fôssemos artesãos na praia.

Esse sonho é tudo menos verdade.

As artesãs e artesãos espalhados por aí sabem que o trabalho é duro, o pagamento é pouco e a valorização está longe de ser aquela dada aos caras do Renascimento. Não há “hipongas”, “comunistas comedores de crianças” ou mendicantes vendedores de pulseiras. Há trabalhadores e trabalhadoras vivendo do seu trabalho criativo e desejando o mesmo que qualquer outro profissional: valorização e respeito.

Não é uma questão de levantar aqui a bandeira vermelha da foice e martelo e sair por aí promovendo revoluções armadas (embora muitos de nossos leitores achariam isso até uma boa ideia), e sim de se questionar por que os grandes grupos empresariais lucram tanto vendendo produtos de baixa qualidade e que exploram a mão de obra. Será que esse sistema que organiza nossas relações de trabalho e sociais é realmente o melhor que conseguimos desenvolver? O ser humano limita-se a isso? Ou será possível construir uma sociedade mais coletiva, mais humana e consciente?

Deixo pra vocês, caros leitores, essas angustiantes perguntas ainda sem resposta…

Autor: Rafael Santos da Silva – Tradutor, revisor e ocasional artesão da palavra.

Colaboração: Beatriz Vilela

1 Comment

  1. Sou professora e artesã, valorizo muito o trabalho manual pois além de ser um trabalho único existe toda uma cultura local sobre a arte, seja ela a pintura, o crochê, tricô, etc. Nossa sociedade valoriza trabalhos industrializados e muitas vezes não se questionam a custa de que vem esses produtos que pagamos mais baratos? ( Trabalho escravo muitas vezes) pois é, a matéria prima tem um custo, seu tempo de trabalho tem um custo, por isso eu valorizo organizações que se juntam com um objeto comum e compram de quem faz, respeitando o meio ambiente e valorizando a arte. Artesanato não tem preço, tem valor.

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