Olá pessoal, já pararam para pensar o que acontece com aquela roupa que fica parada na arara de uma loja por meses? Será que rola um super descontão? Será que essas roupas são doadas? Vão para um outlet? 

Nem sempre é isso que acontece, e hoje vamos falar sobre o mundo da moda e poluição ambiental.

O mercado têxtil é atualmente um caso de sucesso econômico, tendo crescido em torno de 5,5% a cada ano. São 2,4 trilhões de dólares anuais movimentados no mundo, o que colocaria a indústria da moda como a 7ª maior economia do planeta, caso fosse um país.

Tanto lucro, consequentemente, vem acompanhado por um grande desperdício de tecidos e altas emissões de carbono.

O equivalente a um caminhão de lixo têxtil (sobras de tecidos) é desperdiçado por segundo no mundo, sendo queimado ou descartado em aterros sanitários. Mesmo com processos de modelagem inteligente, uma grande quantidade de matéria-prima é descartada diariamente, cerca de 20 a 30% do tecido envolvido no processo de corte de uma peça.

O relatório “A new textiles economy: Redesigning fashion’s future”, (em tradução livre: Uma nova economia têxtil: redesenhando o futuro da moda) lançado em novembro de 2017 pela Ellen MacArthur Foundation, com o apoio da estilista Stella McCartney, convida os fabricantes de roupa a reverem a maneira como a moda é produzida, começando por mudar a ideia de que roupas são descartáveis. 

“Constituindo-se sobre um modelo linear desatualizado, preso ao eixo ‘Extrair-Produzir-Descartar’, a indústria têxtil de hoje é uma gigante quando o assunto é desperdício e poluição. O relatório da Fundação Ellen MacArthur ‘A new textiles economy: Redesigning fashion’s future’ (em tradução livre: Uma nova economia têxtil: redesenhando o futuro da moda) apresenta uma visão ambiciosa de um novo sistema baseado nos princípios da economia circular, que oferece benefícios para a economia, sociedade e meio ambiente. Precisamos que toda a indústria se junte a ele.” – Ellen MacArthur

A produção em escala global, com roupas sendo desenhadas em um país, produzidas em outro e comercializadas no mundo inteiro, também faz com que a indústria da moda seja responsável por 1,2 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa anualmente, valor que supera a aviação comercial e a indústria naval juntas.

Para que o setor não seja responsável por um quarto das emissões de carbono do planeta até 2050, muita coisa precisa mudar. Existem algumas propostas para que o setor se repense, tais como: 

  • desenvolver roupas mais duráveis e possam ser recicladas, alugadas ou revendidas; 
  • eliminar o uso de substâncias tóxicas e fibras plásticas nos tecidos; 
  • fazer da durabilidade um conceito mais atraente; 
  • melhorar radicalmente a reciclagem através da transformação do design, coleta e reprocessamento do vestuário; 
  • fazer uso efetivo dos recursos e insumos renováveis. 

O relatório defende que a indústria da moda deveria se aproximar da economia circular, em que o reaproveitamento é um grande valor.

Hoje em dia ainda vemos esse tipo retrógado de economia, onde não pensam em sustentabilidade.
Na economia circular, o desperdício é mínimo.

Todos esses prejuízos ambientais provocados pelo mundo da moda muitas vezes despercebidos graças à ideia de que os tecidos, por serem naturais, não liberam toxinas ou fibras poluentes, questão essa atacada fortemente pelo relatório, já que, de acordo com dados apresentados por ele, 500 mil toneladas de microfibras plásticas são liberadas na lavagem de roupas. 

Esse número é 16 vezes maior do que os microplásticos contidos em cosméticos, que já têm o uso proibido em diversos países. Para piorar, se nada for feito, a previsão é de que até 2050 sejam liberadas 22 milhões de toneladas de microfibras plásticas nos oceanos.

E no quesito peças de roupas??

Por ano, 500 bilhões de dólares são jogados fora com roupas que foram pouquíssimo usadas e que quase nunca são recicladas.

No Brasil, 32 mil empresas produzem 5,5 bilhões de peças anualmente. Destas, 150 milhões encalham. Para não falar das 175 mil toneladas de aparas e fios que sobram da fabricação – 80% disso não é reciclado.

Algumas marcas de luxo têm o péssimo costume de queimar seus estoques encalhados, não no sentido de vender barato, e sim tacar fogo mesmo em roupas, perfumes e acessórios.

Em plena era da sustentabilidade, ainda existem marcas que fazem isso!

Queimar estoque morto é uma questão não apenas ambiental, mas também social, uma vez que o mundo AINDA não consegue dar conta de combater a pobreza extrema. O pensamento que fica, pelo menos naquelas pessoas que se importam com essas questões, é: como podem queimar milhões em roupas sendo que há milhões de pessoas no mundo sem ter o que vestir?

Por que as marcas de luxo queimam seus produtos não vendidos? 

Basicamente para proteger sua propriedade intelectual, manter a exclusividade e evitar a falsificação. A maior parte das grifes de luxo não faz liquidação ou bazares para evitar que suas peças cheguem por um preço barato em lojas de desconto, sites de revenda ou que sejam revendidas no mercado paralelo. Muitas fazem vendas para os seus funcionários e imprensa, e o que sobra, acaba na fogueira.

Mais algumas reflexões para vocês… será que essas marcas de luxo querem ter sua “imagem” associada ao pobre? Até onde vai a sustentabilidade dessas marcas? São marcas realmente sustentáveis?

O que as marcas podem fazer para diminuir esses impactos?

As principais contribuições que as marcas podem fazer para o meio ambiente são: melhorar a mistura de materiais, aumentar o uso de transporte sustentável e melhorar as embalagens.

Outra questão que precisa ser revista com urgência é o planejamento de quantidade. As marcas estão produzindo muito além do que é consumido. Esses números precisam ser revistos. 

E ao invés de queimar seus produtos…

– Vender para brechós ou lojas de desconto, físicas e online;

– Doar para jovens designers e faculdades de moda;

– Fazer liquidações periódicas;

– Ter sua própria operação de outlet vendendo coleções passadas por preços mais baixos;

– Doar para fundações e instituições de caridade ao redor do mundo;

– Iniciar uma ação de reciclagem dentro da própria loja;

– Trabalhar com upcycling, construindo uma peça nova a partir da antiga.

Essas são algumas dicas, e mesmo para as pessoas que possuem uma pequena confecção, trabalhar esses quesitos é uma questão de sustentabilidade.

E nós consumidores? O que podemos fazer?

Já ouviram falar de “fast fashion” ou “moda rápida”?

Sabe aquela roupa e acessórios que estão bombando nas novelas ou no seu programa favorito? Será que esse look ficará em alta por anos? Ou será que em alguns meses vai se tornar obsoleto, uma daquelas coisas que todo mundo acha brega e aponta o dedo quando vê alguém usando? Se você tem pelo menos 30 anos, vai saber do que eu estou falando….

Pois é, essa é a moda rápida.

Foi a maneira que a mídia criou para expressar a alteração cada vez mais veloz da moda por grandes empresas.

Peças de moda rápida são utilizadas menos de cinco vezes e geram 400% mais emissões de carbono do que peças comuns, que são utilizadas 50 vezes. E a produção de roupas não polui apenas com emissão de carbono. Para produzir fibras têxteis é preciso desmatar, utilizar fertilizantes, agrotóxicos, extrair petróleo e transportar, entre outras formas de poluição.

Deixar um pouco de lado esse tipo de moda e investir em peças que não saem de moda nunca (vide as nossas famosas e atemporais calças jeans) é uma forma de sustentabilidade.

Adquirir peças feitas pelos costureiros e fábricas do seu bairro também, já que isso reduzirá a emissão de poluentes proveniente dos transportes. 

Se for inevitável o descarte, encaminhe corretamente para postos de coleta próximos de sua residência. Você ainda pode adotar práticas como aluguel (será que é necessário comprar uma roupa que será utilizada apenas uma vez em um evento?), revenda, reparo, reforma e redução na lavagem e secagem.

Comprar em brechós e bazares também ajuda e muito o meio ambiente e, de quebra, gera uma economia no seu bolso.

Como vocês viram, existem várias formas de sermos sustentáveis no quesito moda, é só escolher aquela que mais te agrada!

Autora: Caroline Figueiredo, bióloga e educadora ambiental

FONTES:

https://fashionforbetter.com/br/lixo-textil-desperdicado-por-segundo/
https://www.ecycle.com.br/industria-da-moda/
https://www.ellenmacarthurfoundation.org/news/one-garbage-truck-of-textiles-wasted-every-second-report-creates-vision-for-change
https://ffw.uol.com.br/noticias/sustentabilidade/as-marcas-de-luxo-e-sua-pratica-de-queimar-estoque-morto/https://www.ecycle.com.br/fast-fashion/
https://www.ecycle.com.br/fast-fashion/

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